"A menina que não se encaixava"
- amafamidias
- 16 de set. de 2025
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Aquela menina que tinha dificuldades para dormir, fixação por filmes de terror e sempre foi taxada de braba, difícil e teimosa, aprendeu desde cedo a imitar o comportamento de outras meninas, principalmente aquelas que correspondiam às expectativas da sociedade e das famílias. No geral, eram vaidosas, falavam baixo, dançavam balé e jazz muito bem, respeitavam os adultos e tinham excelentes notas na escola.
A meu ver, a vida delas fluía sem dificuldades e tudo acontecia como tinha que ser, ao contrário da minha. Eu só me sentia feliz quando estava livre, "brincando na rua, em contato com a natureza e na casa das minhas tias maternas e paternas". Até a etapa da Educação Infantil, eu gostava da escola. As séries iniciais do Ensino Fundamental foram nebulosas, tenho raríssimas lembranças e, aos 11 anos, tentei me suicidar ao chegar da escola.
Minha mãe procurava uma explicação para o comportamento daquela menina e o fato de ela não corresponder às expectativas. Me levava para vários lugares, mas não encontrava respostas e nossa relação ficava cada vez mais estremecida.
A adolescência foi uma etapa conflituosa também e cada vez mais o Masking (ato de esconder ou suprimir traços autistas) foi fazendo parte da minha vida. Eu observava os lugares e as pessoas e tentava me encaixar, corresponder ao que esperavam, mas sempre me sentindo inadequada e parecendo narrar a minha vida.
As notas na escola iam cada vez pior. Reprovei duas vezes, sendo taxada de burra. Até os 14 anos, eu nunca tinha beijado ninguém, mas como minhas amigas já tinham ficado, me senti na obrigação de dar o primeiro beijo em um garoto, mas foi tudo muito mecânico. Com os 15 anos, chegaram as incansáveis festas de debutante e lá estava eu, mesmo não querendo, mas estava cansada de frustrar a minha mãe.
Vieram alguns namorados, mas sofri abusos e fui traída. Conheci um homem que fez tudo conforme o previsto: me convidou para sair, me beijou, pediu em namoro e casamento. Fiquei com ele por 11 anos, mas não era eu na essência. Mais uma vez, a camaleoa surgia e eu ia sofrendo calada e abdicando de mim, pois resolvi ser a pessoa boazinha e aceitava tudo sem questionar.
Com o divórcio, resolvi ir em busca do meu ser e cansei de viver personagens, mas não entendia o que eu tinha de errado. Desde pequena, dizia que ia ser professora e acabei fazendo Magistério. Mas, mesmo passando em 2 vestibulares — um para Direito e outro para Pedagogia — eu desistia e não conseguia concluir. No caso do Direito, era um desejo da minha mãe e eu não conseguiria defender causas e pessoas em que eu não acreditava e não eram justas. A Pedagogia era um desejo e uma necessidade por causa da legislação vigente, mas só consegui me formar em 2019 pela UCS e em curso híbrido. Na graduação, aprendi a forma como eu apreendia os conhecimentos e a "aluna burra" foi laureada.
Em 2010, passei em concurso público para professora da Rede Municipal de Farroupilha e, em 2015, no segundo concurso. Na minha trajetória como professora, sempre tive alunos e alunas com deficiência e nunca questionei a inclusão, pois para mim ela era natural. Mas só conheci 2 pessoas que eram autistas e ambas eram nível de suporte 3 e com deficiência intelectual.
No ano de 2017, recebi o convite para trabalhar na AMAFA e a minha vida foi sendo ressignificada. Eu sentia que ali era meu lugar. A primeira coisa que observei foi que cada autista era único e a segunda, que eu não sabia nada sobre autismo. Comecei a estudar sobre e nunca mais parei. Por vezes, me identificava com alguém ou alguma situação e uma nuvem começava a pairar: "Será que sou autista?". Mas sabia também que era comum as pessoas se identificarem com algumas características, ainda mais trabalhando diariamente.
Em 2023, fui a um congresso em POA e conheci uma mãe atípica que foi diagnosticada tardiamente e ali senti que era o momento de pedir ajuda e ouvir a voz que gritava dentro do meu corpo: "Se você não pedir ajuda agora, pode ser tarde demais". Depois de procurar por um profissional médico que tinha histórico comprovado no diagnóstico de adultos, fui em busca da Dra. Fabiana Elisa Mugnol, que também estava no congresso, e em 10/11/2023, eu, com 52 anos, fui diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista.
Desde lá, muita coisa começou a fazer sentido e eu tenho buscado seguir na luta para que pessoas com deficiência tenham seus direitos garantidos, sejam respeitadas, não sejam vítimas de capacitismo e ocupem todos os espaços.
A luta é dura, diária, mas necessária. Precisamos falar, informar e fomentar discussões. Com isso, tenho palestrado por vários lugares do Rio Grande do Sul sobre educação, inclusão e neurodivergência. Sigo aprendendo e ensinando, mas acima de tudo, grata pela AMAFA fazer parte da minha vida.
Farroupilha, 25 de agosto de 2025.
Anelise de Almeida Gajardo


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